Os espaços de Jayme Lerner
Fonte: Valor Econômico
A escolha do meio de locomoção ganha um peso maior quando se está a caminho de uma entrevista com um dos maiores especialistas em mobilidade e sustentabilidade urbanas. A ideia de pegar um táxi no aeroporto provoca um certo sentimento de culpa. Assim, ao optar por tomar um ônibus, a repórter se deu conta que começara, de certa forma, a vivenciar o tema da conversa marcada para a hora do almoço. Mal sabia, porém, que este “À Mesa com o Valor” não se encerraria com o fim da refeição. É impossível pedir a Jaime Lerner para concluir a descrição do ambiente que o inspira numa conversa de mesa em um restaurante. Um arquiteto precisa mostrar seu espaço. Por isso, o segundo café do almoço foi na cozinha do escritório do urbanista, local diretamente ligado à sua trajetória de vida pessoal e profissional.
Construída a partir de um projeto que lhe rendeu um prêmio no início da década de 1960, a casa onde funciona o escritório Jaime Lerner Arquitetos Associados serviu de moradia para o urbanista,mulher e filhos por mais de 45 anos. O que chama a atenção são as soluções de sustentabilidade, impensáveis no padrão de moradia de quase meio século atrás.
Mas, antes de chegar ao escritório na tranquila rua Bom Jesus, é preciso ouvir o que Lerner tem a contar no Vin Bistro, restaurante que o urbanista escolheu para esta ocasião. O ponto alto da casa inaugurada há um ano no bairro gastronômico Batel é a loja de vinhos, instalada em pleno salão do restaurante. É em meio às prateleiras, apreciando a variedade de rótulos, que encontramos Lerner. Ele chegou cedo. E veio
Para começar, esclareça-se que Lerner está ausente da política desde o fim do último mandato de governador, em 2002. “Estou fora de partido e de qualquer atividade política.” Tanto que mudou até o domicílio eleitoral, para o Rio.
O ex-político faz questão de deixar para trás qualquer história relacionada aos tempos de vida pública. Foram três mandatos como prefeito de Curitiba (dois, por indicação de governadores, na época anterior às eleições diretas) e mais dois como governador do Paraná. O último mandato de governador foi o mais tumultuado e envolveu episódios de denúncias de desvio de dinheiro público, que se estenderam até poucos meses atrás. Também tenta apagar os tempos de trocas de farpas com Roberto Requião, seu sucessor, que frequentemente acusa o governo do urbanista.
Logo que abandonou a política, Lerner se entregou, “de corpo e alma”, à atividade de que mais gosta, a mesma que acabou levando-o para a vida pública, segundo história que ele ainda vai contar neste almoço.
O urbanista acata, não muito confiante, a sugestão de vinho feita pelo sommelier – um chileno Portal Del Alto (reserva Four Reds, que mistura as uvas cabernet, carmenère, syrah e merlot). E sugere dividir com a repórter duas entradas e dois pratos. Para começar, um duo de palmito e o mantecato de bacalhau. Viria depois o polvo grelhado, que logo atrai o interesse do entrevistado, além da grilhata de pescados.
A vida de Lerner anda muito acelerada. Tem se dedicado, com a equipe de uns 25 arquitetos e engenheiros, ao que chama de acupuntura urbana. “O processo de planejamento de uma cidade leva tempo e eu não quero, a esta altura, ficar amarrado.” A acupuntura funciona assim: com um ou dois membros da equipe, ele passa alguns dias na cidade interessada em suas ideias. Se há acordo, fecha-se um contrato com duas opções: o escritório do arquiteto pode elaborar o trabalho todo ou, como ele prefere, ajuda a equipe local a desenvolvê-lo.
Há vários projetos em andamento. Santiago de los Caballeros, segunda maior cidade da República Dominicana, quer salvar um rio chamado Yaque. Na última visita, Lerner se arriscou até a ajudar a compor o que ele chama de merengue e, com um músico local, foi feita uma canção: “Ya que soy, ya que somos…”
Existe um vestígio de bom humor na conversa do homem que já foi mais brincalhão. Hoje, Lerner está contido. E triste. Faz pouco mais de um ano que sua mulher morreu. Lerner sempre gostou de usar roupa escura. Blusas de golas altas pretas por baixo do paletó. Desta vez, parece estar de luto. Fani lutou bravamente contra um câncer durante 15 anos. Foram 49 anos de convivência, entre namoro e casamento. Ela, que Lerner destaca como “íntegra, extraordinária” e que lhe faz “muita falta”, trabalhou na Secretaria da Criança nos tempos de seu governo e de outros prefeitos. Com sua morte, ele passou a se dedicar ainda mais ao trabalho.
Também passa por processo de acupuntura a linda ilha de Mazatlán, no México. A proposta de Lerner para esses 12 quilômetros de costa no Pacífico é construir um lugar por onde apenas bicicletas ou carros elétricos poderiam circular. Os visitantes chegariam por meio de um barco, que também está sendo desenvolvido pelo escritório do Paraná. Lerner se diverte com a situação: um processo de reforma agrária permitiu aos ilhéus o direito de possuir parte do território, o que obriga o urbanista a fazer reuniões com 2 mil pessoas.
Lerner está incomodado com o vinho servido no almoço. Deu um tempo para a bebida “respirar”. “Veja se está bom agora”, diz. “Não é o que o sommelier falou. É bom, mas nenhuma maravilha.”
O interesse desse homem de 72 anos pela arquitetura despontou quando ele tinha seis anos. Lerner foi criado na rua Barão do Rio Branco, uma das principais do centro de Curitiba. Ali havia de tudo: estação ferroviária, estação de bonde, Assembleia Legislativa (que deu lugar à Câmara Municipal), algumas fábricas, duas empresas de jornais, três estações de rádio. Lá no fim da rua surgia, por fim, a prefeitura.
Ao lado da casa do pequeno Jaime e os quatro irmãos instalou-se o circo Irmãos Queirolo, que permaneceu por lá durante dez anos. “Naquela rua eu fiz o meu curso de realidade e o meu curso de fantasia”, diz o urbanista.
Na mesma Barão do Rio Branco, seus pais, judeus imigrantes, que vieram de uma aldeia que hoje pertence à Ucrânia, tinham uma loja de armarinhos e outros produtos. Na fantasia do menino, o piso, de ladrilho hidráulico, às vezes parecia plano e outras surgia como um desenho no espaço.
A lata de fermento Royal também participou do despertar de uma vocação: o rótulo trazia um losango com uma lata dentro, onde havia outro losango, com mais uma lata dentro… Quando vinha uma enchente, o garoto tinha a impressão de estar dentro de um transatlântico. “Essa visão de dentro, de fora, do espaço e do infinito criou os ingredientes para eu gostar da profissão.”
Como na época não havia curso de arquitetura em Curitiba, Lerner decidiu-se por engenharia. Mas, ao voltar de um curso de urbanismo na França, como bolsista, já havia uma faculdade de arquitetura na cidade. E embora o tivessem convidado para ser professor, ele preferiu ser aluno. Oscar Niemeyer também influenciou na carreira. “Quando vi os projetos dele na biblioteca tive certeza de que não queria seguir a carreira de engenheiro.”
- O senhor foi um técnico no governo. Mas se de um lado Curitiba é referência e inspirou cidades como Bogotá, por outro não vemos a mesma reprodução de conceitos em mais cidades brasileiras. A política atrapalhou?
O tema sustentabilidade é praticado em Curitiba há 40 anos. Fazemos coleta seletiva de lixo há 20. Eu gostaria que outras cidades brasileiras também fossem referência internacional. Mas acho que como eu fui prefeito e governador, minha imagem era a de um político. E aí, por razões políticas, os demais prefeitos… Você sabe que o ego político às vezes não deixa acontecer. Há coisas numa cidade que não podem ser delegadas à burocracia. Às vezes há excelentes profissionais, mas eles estão ali para fazer milhagem ou defender uma tese na universidade. Outra visão estreita é que às vezes as cidades grandes acham que não podem se espelhar nas pequenas.
- E como o arquiteto foi parar na política?
- Foi consequência do meu envolvimento com a cidade. Eu era estudante de arquitetura e o prefeito da época estava destruindo a história da cidade, alargando ruas. Começamos um movimento estudantil. Na época em que os prefeitos eram nomeados, os governadores davam preferência a pessoas que não lhes fizessem sombra. Aí eu, um técnico, fui escolhido. Eu sempre dizia à equipe: ‘Temos que trabalhar rápido, porque talvez na próxima semana eu não esteja mais na política’.
O prato com o polvo chega à mesa e Lerner sugere “dar uma paradinha” (na conversa, obviamente). A pausa para degustação do polvo é rápida. Lerner agora responde sobre os trabalhos de desenvolvimento de um carro elétrico. Sua equipe já testa o quinto protótipo. O projeto foi inspirado no sistema de bicicletas públicas de Paris. O plano é apresentar uma solução de veículo público. Ou seja, o usuário pagaria somente pelo uso da energia (na recarga em estações públicas). O veículo seria usado por toda a população e estaria integrado ao transporte público.
E qual será o futuro do automóvel?
- O ideal seria ter um carro verde para a cidade, com velocidade máxima de 25 quilômetros por hora, com autonomia de 50 quilômetros. É uma forma de integrá-lo ao pedestre. O veículo que hoje faz 150 quilômetros por hora não precisa estar na cidade. Ao mesmo tempo, o carro pequeno não tem lugar na estrada. O que pode acontecer é a pessoa comprar um automóvel e ganhar do fabricante, por exemplo, 500 horas para gastar no carro público.
Lerner é o único brasileiro na lista dos pensadores mais influentes do mundo, da revista americana “Time”. Ele diz ter orgulho de estar ao lado de celebridades como a arquiteta iraquiana Zaha Hadid. As transformações em Curitiba, com o sistema integrado de transportes, foram citadas na homenagem feita ao urbanista em texto escrito pelo prefeito de Vancouver, Gregor Robertson.
- E de onde veio a inspiração para criar o BRT (“bus rapid transit”), o sistema de transporte coletivo de Curitiba?
- Quando Curitiba tinha 700 mil habitantes dizia-se que quando a população atingisse um milhão haveria necessidade de metrô. Nasceu, então, a ideia de um sistema de superfície, com canaleta exclusiva, eficiência no embarque e tempo de espera curto. No fundo, metronizamos a superfície. Isso começou em 1974, com 25 mil passageiros por dia. Hoje são 2,3 milhões. Um volume que equivale ao que metrô e trem de subúrbio do Rio transportam juntos.
- O senhor acha que a ampliação do metrô em São Paulo não será eficiente?
- Existe um falso dilema de ter de escolher entre carro e metrô. Nem um nem outro. O certo é criar o metrô esperto, o carro esperto, o táxi esperto, integrando tudo. São Paulo está ampliando as faixas das marginais. Isso só vai levar um carro rapidamente de um ponto de congestionamento a outro. As pessoas pensam que o metrô estará na porta da casa delas. É preciso lembrar que as cidades com uma rede completa de metrô, como Londres ou Paris, fizeram isso há 150, 130 anos, quando o trabalho no subsolo era muito mais barato. Ter uma rede completa hoje é impossível. São Paulo tem algumas linhas de metrô, mas 84% do deslocamento é feito na superfície.
A integração é o plano que Lerner propõe para a Olimpíada do Rio. Quanto à Copa, em 2014, acredita que o país tem tempo para cuidar da logística. “Não temos tanto futebol para 40 mil espectadores.” O que o preocupa é a logística dos aeroportos. E repudia a concentração dos voos em Cumbica.
Lerner torcia para o Coritiba até um dos quatro netos se revelar atleticano. “Como vou torcer contra meu neto?” O arquiteto tem duas filhas e dois casais de netos. Uma das filhas estudou jornalismo, mas trabalha com ele. A outra, coreógrafa, mora em Nova York.
As artes sempre foram seu ponto de referência e também de frustração. Tentou estudar clarineta nos tempos de prefeito de Curitiba. Até o dia em que o professor o aconselhou a se dedicar somente à prefeitura. O cinema é outra paixão. Admira os diretores italianos “dos bons tempos”, como Vittorio de Sica e Federico Fellini. Aposta que poderia ganhar a vida respondendo perguntas sobre cinema.
- Como o senhor vê o futuro das cidades? O fluxo migratório continuará?
- O mundo vai se urbanizar. Mas não necessariamente nas grandes cidades. Muitos acham que a cidade do futuro é uma paisagem do Flash Gordon (no caso dos otimistas). Os pessimistas já pensam em Blade Runner. No fundo, as cidades de hoje não são, fisicamente, muito diferentes das de 300 anos atrás. Não há por que acreditar que daqui a 50 anos vamos ter lugares tão diferentes.
Para o urbanista, as grandes mudanças já aconteceram. Primeiro, com a diminuição dos grande geradores de empregos. “O tamanho das fábricas diminuiu, levando-as para as cidades, o que é muito bom.” Outra grande mudança, destaca, foi a criação das redes sem fio. “Antigamente, uma universidade tinha que ser construída longe da cidade, em função da quantidade de equipamentos. Hoje você põe coisas complexas em qualquer envelope.”
Lerner é a favor do computador e vê a equipe trabalhar com facilidade com o instrumento. Mas seus projetos ainda são amadurecidos em tradicionais cadernos de notas Moleskine.
Para viver bem numa cidade, sentencia, é preciso usar menos o carro (não precisa deixar de usar), separar o lixo e aproximar-se do endereço do trabalho. “As gerações mais novas estão mais conscientes, mas às vezes não sabem o que fazer.” A sustentabilidade, ensina, é uma equação entre o que se poupa e o que se desperdiça. Mas o urbanista debocha de algumas ações: “Alguns bancos que acham que seu papel é fazer cheque em papel reciclado, assim como há empresas que acreditam que construir condomínios fechados com um bosquezinho é exemplo de sustentabilidade”.
Para Lerner, o ideal é misturar trabalho, moradia, lazer… “Tudo junto”. “Por que a gente gosta das cidades europeias? Porque elas trazem essa mistura – mobilidade, sustentabilidade e sociodioversidade. Quanto mais uma cidade mistura funções, trabalho e classes, mais humana ela fica.” Outro ponto: evitar os condomínios fechados, que acabam criando isolamento e intolerância, o que atrai violência.
- E as torres de prédios que proliferam nas cidades? Não há limite?
- A gente não precisa ter medo da densidade. É possível ter densidade quando há oferta de transporte.
As cidades favoritas de Lerner: Nova York, São Francisco e Portland, nos EUA, Londres e Paris, e Uahaca (México), Buenos Aires.
O urbanista sugere prosseguir com a conversa em seu escritório. Melhor, então, dispensar a sobremesa e tomar o segundo café na cozinha da casa da rua Bom Jesus. Pelo caminho, Lerner mostra, com orgulho, os famosos tubos de embarque do sistema de transporte coletivo que consagrou Curitiba.
Seu apartamento fica na mesma rua do escritório, em frente da casa cercada de um jardim onde ele e a família viram a quaresmeira e outras árvores crescerem.
A casa é um exemplo de sustentabilidade. O teto foi feito com terra e vegetação, que servem de isolantes térmicos. A lareira da sala foi instalada em uma parede que separa o espaço do quarto que foi do casal, o que garante que um cômodo aproveite o aquecimento do outro. A madeira que sobrou do piso serviu para os armários. O arquiteto ainda aproveitou o longo corredor que une a parte da frente com os fundos da casa para construir uma biblioteca de dois andares, o que lhe garante 400 metros de estantes.
Na cozinha, com farta luminosidade, graças ao teto de vidro, desfilam, vez ou outra, os próprios funcionários do escritório, que se candidatam a cozinhar o almoço coletivo.
O trabalho na rua Bom Jesus é feito de maneira simples. “Sou contra fazer da arquitetura uma moda”, diz. “A arquitetura tem de ser contemporânea, tem de refletir uma época. Moda passa.” À sua mesa de trabalho, agora, Lerner conta que, quando era presidente da União Internacional dos Arquitetos, costumava dizer: “Temos muito orgulho das nossas estrelas, mas precisamos de uma constelação de arquitetos preocupados com a sociedade”.
A recepção da equipe do escritório é uma demonstração de intimidade. Se nas ruas de Curitiba Lerner é até hoje chamado de “prefeito”, no escritório até a mais jovem estagiária o chama de Jaime. A primeira providência da assistente é exibir a vasta lista de pedidos de reuniões e palestras, que se estende do México a Nova Delhi. É preciso abrir mão de vários. Lerner só abraça as causas em que enxerga alguma estratégia, algum desafio. “Com o tempo, a gente aprende a fazer o que gosta.”
- E como a criatividade surge?
- Se você está parado e não tem inspiração é porque estão lhe faltando dados. A criatividade é a arte de relacionar. Na vida aprendi outra coisa: a criatividade vem quando se corta um zero do orçamento, a sustentabilidade vem quando se cortam dois zeros e a solidariedade aparece quando você assume sua identidade respeitando a diversidade dos outros.
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