Mudança efetiva requer planos de mais longo prazo
Fonte: Valor Econômico
São Paulo não pode parar, o famoso slogan desenvolvimentista dos anos 60, tem de ser ajustado. “É fundamental que a cidade pare de crescer”, afirma o empresário Hugo Marques da Rosa, cujos interesses à frente da Método Engenharia poderiam sugerir uma posição radicalmente favorável ao crescimento acelerado. Na valorizada zona sul, ele comanda atualmente a maior obra de construção de escritórios corporativos em curso na América Latina, com quatro torres, num total de 73 andares e 240 mil metros quadrados de área. Um equipamento urbano capaz de receber 15 mil pessoas ao dia.
Em lugar de apostar no adensamento populacional como solução para um rápido aproveitamento dos novos prédios, Marques da Rosa faz parte do grupo de especialistas em urbanismo que defendem propostas de crescimento sustentável. “São Paulo não suporta receber mais gente”, diz ele, que foi secretário estadual de Energia e Recursos Hídricos. “O sistema de abastecimento de água da cidade vive em permanente situação crítica, com níveis de oferta por habitante equivalentes aos do semiárido nordestino”.
A boa notícia é que, pelo ângulo demográfico, São Paulo efetivamente está parando de crescer. “A cidade terá, em breve, taxas negativas de crescimento populacional”, assegura a demógrafa Bernadete Waldvogel, pesquisadora da Fundação Seade. Com a intenção de incentivar os debates em torno do aniversário da capital, ela realizou uma pesquisa para apurar o atual perfil da população, com base em dados do censo de 2007, feito pelo IBGE. A taxa de fecundidade das paulistanas foi medida em 1,9 filho por mulher. Esse número já está abaixo do nível de reposição social, de 2,1 filhos por mulher.
O fluxo de migração igualmente é negativo. “Nos últimos vinte anos, tem mais gente saindo do que chegando a São Paulo”, diz Bernadete. A comparação entre dados oficiais de 1950 e 2007 revela uma forte desaceleração na taxa de crescimento. Enquanto a população paulistana aumentou 10% no ano que determinou a metade do século passado, agora essa taxa é quase vinte vezes menor, com 0,59% de crescimento. Ao mesmo tempo, a idade média do paulistano aumentou, saltando de 27 anos, em 1950, para 33 anos em 2007. “O freio no crescimento representa um fator a menos de pressão sobre os recursos naturais da cidade. Combinado com o amadurecimento da população, significa um ótimo momento para se planejar melhor o futuro”, acredita a demógrafa.
“Numa cidade com milhões de interesses econômicos, disciplinar o apetite pelo desenvolvimento imobiliário seria um bom começo para um planejamento geral”, sustenta a economista Maria de Fátima Araújo, autora da tese de doutorado Reestruturação Produtiva da Região Metropolitana de São Paulo. Ela registra como inaceitável o fato de não funcionar, nesse momento, nenhum organismo oficial de debate e discussão a respeito dos problemas comuns às 39 cidades, incluída a capital, que formam a sexta maior região metropolitana do mundo. “Prefeitos, executivos públicos, planejadores e políticos dessa imensa mancha urbana não têm um lugar formal para a busca de soluções aos problemas comuns”, acentua. “Essa falta de coordenação faz com que os avanços aconteçam num ritmo muito lento, às vezes imperceptível.”
O ideal, segundo o engenheiro Marques da Rosa, seria haver um planejamento estratégico para São Paulo e seu entorno que vislumbrasse os próximos cem anos. “No curto prazo, praticamente nada pode ser feito, mas a longo prazo tudo é possível de ser imaginado”, defende.
A ausência de um plano global para a Grande São Paulo faz com que anomalias urbanas se repitam sem sinal de solução. É o caso, por exemplo, do maior entreposto de alimentos da América Latina, o Ceagesp. Situado na zona Oeste, às margens do rio Pinheiros, suas instalações entram em colapso a cada chuva forte, em razão das inundações provocadas pela cheia do rio. O resultado é um desastre econômico observado pela perda de toneladas de mercadorias, prejuízos para uma ampla cadeia produtiva e consequente alteração nos preços a varejo. “Um planejamento minimamente razoável poderia estabelecer um local muito mais adequado para aquele equipamento urbano”, diz o engenheiro. Ou, até mesmo, estabelecer a meta pela sua descentralização. Mesmo que não haja condições de uma mudança imediata, a simples indicação da nova estratégia valeria como um sinal para os agentes produtivos.
Funcionou assim com um dos principais cartões-postais da cidade, a ponte Estaiada, na zona sul. “O anúncio de que ela seria construída mostrou para o mercado que a cidade iria crescer naquela direção”, lembra o presidente do Conselho Regional dos Corretores de Imóveis, José Augusto Viana Neto. “Muita gente se organizou para aproveitar as oportunidades que, de fato, surgiram.”
Nos sonhos de muitos planejadores urbanos, incentivos fiscais deveriam ser dados para atrair empresas com necessidade mão de obra intensiva para perto dos bairros mais populosos. Junto a isso, as linhas do Metrô funcionariam como eixos de desenvolvimento imobiliário residencial. “Levar o emprego até os bairros e criar moradias próximas ao Metrô é igual a encurtar distâncias entre as pessoas e seus locais de trabalho, uma forma de aumentar a mobilidade urbana”, argumenta Marques da Rosa. Para ele, a atual legislação que limita a área construída dos prédios em quatro vezes a área do terreno em que está inserido precisa mudar. “O ideal seria umas dez vezes”. O raciocínio é o de que edifícios mais altos, com capacidade para atrair mais pessoas, abririam espaço para vazios na mancha urbana, que poderiam ser ocupados por parques e outros equipamentos comunitários. Um sonho que, com planejamento, pode se tornar real.
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